PalavrasCruzadas



30 anos contados. O Infinito sentido.

Um sorriso tapava-me a cara. Alegria! Aquela era a pessoa mais lutadora que jamais havia conhecido. Ensinara-me a viver, lutar, agir. E estava mesmo ali. Sentada a meu lado, com as pernas cruzadas de uma tal forma subtil que me apetecia imita-la. Mas ficaria mal… Não ia arriscar.

Mas quem me mandara aquela força da natureza para a minha vida? Quem fora não sei. Mas tinha a certeza que um dia iria perceber. Este momento não mais pode acabar. A viagem pode esperar.

“E então fui-me embora. Nada mais tinha a fazer naquela terra. A minha missão estava completa, ninguém mais precisava de mim.”

Era assim que acabava a história que Anne me entalara no coração. Com um sorriso, caia-me a lágrima dos olhos que embaciava a paisagem, de uma terra incerta, que podia ver através da janela do comboio. Embaciava algo que na altura não sabia definir. Embaciava o vento batendo na face mais delicada das flores que cobriam o terreno quase infértil. Quase nada. Era essa história, que Anne me começara a contar à tempos atrás.

“Sei lá quantos anos tinha… Que interessa isso? Não querias que te contasse alguma coisa? Então cala-te e ouve. Já foi há algum tempo que aconteceu, mas posso sempre contar-te. Não perdes nada. Há 20 anos, tornei-me hippy. E então parti por aí. Como tu… Não sei bem, mas acho que dei a volta ao mundo. Mas houve uma terra que me marcou especialmente. Que me marcou demais… Com anos passados de viagem, ali estava eu. Numa terra desconhecida. Incerta. Insegura. A viver o desconhecido, o que ainda tinha por desbravar. A última placa tinha cravada “Nápoles” no seu rosto branco. Até hoje ainda não sei se foi mesmo lá que tudo aconteceu.”

O céu começara a estremecer. A chuva vinha a caminho. Levantei-me e corri a passagem do comboio rumo ao WC. Anne tinha feito uma pausa na sua história. Disse-me que fosse arejar. Obedeci-lhe. De volta ao meu lugar de há várias horas, desgostava-me ver os sentimentos de tristeza e solidão desenhados nas faces agoniadas das pessoas. Quase todas dormiam. Todas viviam algo novo. Sentei-me de novo ao lado de Anne. Sem esperas despropositadas, continuou a sua história.

“Partira para ajudar. E assim foi. Inscrevi-me numa instituição de apoio a cegos. Sempre sentira algo de especial com os cegos. Acho que eles têm algo de super natural. E acho que foi esse afecto por eles que me fizeram acreditar que era capaz de me superar com eles. Durante dez anos trabalhei com eles. Fazia tudo por eles e eles faziam tudo por mim. Mas sentia que algo me faltava. Estava incompleta. Achava que ainda havia algo a fazer por eles. Ou melhor. Por ela. Ela, que, pela primeira vez podia ver o nascer do sol e ver a força do rebentar das ondas do mar. Então entreguei-me. Entreguei-me, contra todos. Mas entreguei-me. Dei os meus dois azuis olhos a ela. E ela pela primeira vez viu o nascer do sol e a força do rebentar das ondas do mar. E ai, sim. Senti que tinha feito alguém feliz! E fiz.”

E foi nessa altura que Anne tirou os estranhos óculos escuros que lhe encobriam a parte mais expressiva da cara. Menos da dela…Um arrepio assombrou-me. Lá fora a chuva erodia fortemente as rochas mais duras. Matava as flores mais delicadas. Silenciava a minha dor.


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