PalavrasCruzadas



Ouvisto

       O dia havia nascido como tantos outros. Impávido e sereno. O sol radiava lá fora. Apenas lá fora. Dentro, a chuva continuava caída e caindo,  ensombrando a alma.           

             O meu vaguear era sentido, ouvido pelas pessoas. Frequentemente entrava nelas. Raramente delas saía. Até hoje ainda não sei responder se sou eu quero e entro nelas, se são elas que me chamam para que me aloje nelas.                

              Então vagueio à espera que alguém me chame ou que encontre alguém. Nesse dia a alegria cruzou-se comigo numa rua desconhecida por muitos. Conhecida por mim. Virou a cara e continuou como se eu, solidão, não estivesse lá. Vi, então que já não havia retorno e o mal estava feito. Não me iriam nunca mais perdoar. Estava cada vez a entrar na vida das pessoas com mais e mais força. Não conseguiria mais parar. Estava sedenta delas.           

             E os dias iam passando. Todos iguais, sem descanso para mim, a bater à porta da alma das pessoas. Deixavam-me entrar e eu batia-lhes, então, bem lá no fundo do coração. Normalmente entrava nas pessoas sem ninguém. Vetustas. Hoje não tinha sido assim. Ele era diferente de todos aqueles humanos carentes, sem amor. Era diferente por dentro. Era diferente por fora. Deixou-me entrar, a custo, mas eu estava finalmente lá. E pela primeira vez, desde tempos remotos, alguém abriu-me uma ferida, daquelas que não doem, mas daquelas que deixam a nossa força, a nossa alma voar com o vento, e ir. Ir para bem longe, para voltar quando a minha amiga/inimiga morte está pronta para entrar. Ele era mais um dos sem nome que eu habitava. Ele era forte e queria-me fora dali. Eu estava a ficar cada vez mais fraco.           

             Dia após dia, noite após noite, eu era empurrado para fora dali, daquela alma. Dia após dia, noite após noite, eu ficava mais fraco. Mas só o abandonaria quando naquela alma fossemos três lá a habitar. Eu, ele e outro. Fosse quem fosse. Três.           

             E os dias foram nascendo. Continuava o meu trabalho. Continuava a levar melancolia a todos. Ele continuava a deixar-me fraco. Era estranho. Muito estranho e todos os dias tentava pôr-me fora dali. Tentava aproximar-se de alguém, mas elas achavam-no fisicamente esquisito de mais. Psicologicamente esquisito de mais. Falava ou por vezes salmodiava sozinho. Mas eram sempre tentativas falhadas.            

             Até que chegou o dia em que me fui embora. Aquele ser amarelo plasticizado, encheu-se de força e desenhou. Desenhou com toda a força. Com toda a alma. Desenhou algo como ele. Estranho como ele. Desenhou. Desenhou, até que o lápis se partiu. Mais uma tentativa falhada de se livrar de mim. Saiu de costas voltadas para o desenho deixando uma esteira de tristeza. Sentia-se perdido. Caído na escuridão. Preparado para que finalmente ficasse nele em descanso, mas um barulho ouviu-se. Viramo-nos para trás. E vimos aquele desenho inacabado ganhar vida. Correram um para o outro e a alma deles formaram uma só. Uma só que me atirou para fora. E então a ferida deixou de existir. Eu também.


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