PalavrasCruzadas



Margens do Índico

28 de Dezembro de 2004, Indonésia

      Acordei alguns dias depois…sentia-me desconfortável. algo pesado estava a fazer força sobre o meu abdómen. Mantive os olhos fechados. Tinha medo do que pudesse ver. Não sabia ao certo o que acontecera. A última que me lembrava era de gritos de pessoas e um forte ruído a embater na estrada de minha casa.

     A meu lado chorava alguém. Parecia-me uma criança. Chorava fortemente. Senti que quando abrisse os olhos não iria ver o que desejaria, nem algo parecido. Passaram-se alguns instantes. O choro da criança fez-me pensar nela. Precisaria de mim, fosse para o que fosse. Abri-os. Só via o céu. Estava azul como era costume e nem uma nuvem branca estava lá para cobrir o sol. Bastou-me rodar um pouco os olhos e vi o que mais temia. Tudo o que em dias fora belo estava agora reduzido a destroços. O que nem nos meus piores pesadelos vira estava ali. Ali, em frente aos meus olhos. A criança continuava a chorar e eu levantei-me a grande custo atirando o pedaço de madeira que me pressionava para o lado. Não me conseguia mexer, mas a mina vontade de ajudar a criança era mas forte. Abracei-a. Ela primeiro rejeitou-me, mas depois deixou-se envolver nos meus braços. Enquanto a abraçava, eu olhava para tudo o que me rodeava. Estava tudo destruído. Casas, lojas, edifícios inteiros. Tudo estava no chão em ruínas. Aquilo apertou-me o coração e a alma. Tentei avistar a minha casa por entre os montes de madeira que ali existiam. Deveria também ter ruído.  O choro da criança acalmou até parar. De repente uma voz assustou-me e sobressaltada larguei-me da menina.

     – Largue-a! Já! Largue a minha filha! – gritava uma voz de mulher atrás de mim – Filha, anda cá!

     Fiquei sem saber o que fazer e o que dizer. A criança tinha ido e as duas já iam longe. A minha única companhia tinha ido embora. Estava sozinha. Levantei-me e senti um forte paroxismo na minha perna direita. A todo o custo segui pela estrada enlameada. Não sabia ao certo para onde iria. Logo nos primeiros metros apareceu um jovem. Não deveria ter mais de dezasseis anos e veio te comigo.

     – Está bem? Senhora! Aconteceu-lhe alguma coisa?

     – Sim estou! – respondi-lhe, mentindo.

     O rapaz aproximou-se.– Perdeu a casa? Precisa de comida? Tem onde dormir? Venh…

    – Não, não preciso de nada. – interrompi, com medo que ele me fizesse mal.

    – Venha comigo – continuou e rapaz, parecendo indiferente à minha interrupção – Parece estar ferida. A minha mãe faz-lhe os curativos e dou-lhe de comer. Parece estar com fome. Venha.

     O rapaz começou a seguir caminho. Eu fiquei onde estava. Não me mexi um milímetro.

     – O que aconteceu? Reponde-me – interroguei eu com uma arrogância que não conhecia em mim. Saiu-me. Talvez por tudo aquilo que estava à minha volta e eu não sabia o porquê.

     – Não sabe?! Um tsunami!

     Arrepiei-me. Afinal o causador de tudo aquilo era um tsunami. Nunca pensara naquela hipótese apesar daquela imensidão de água que cobria as estradas. Nunca. O rapaz começou a andar e eu segui-o. Ainda andamos muito. A cada passo que dava mais pessoas apareciam e os gritos também. Por fim chegamos a uma tenda. Uma senhora já com alguma idade recebeu-me de braços abertos. Tratou-me as feridas e deu-me de comer.   A noite chegou e tive que me despedir deles, afinal eles também não tinham onde dormir. As tendas estavam ocupadas por feridos e senti que lhes estava a causar incómodo, apesar de eles dizerem que não. Caminhei a pensar no que faria. Não tinha nada. Não tinha ninguém. Quando já não aguentava mais decidi sentar-me a um canto, onde a água não tinha destruído a casa. Num momento já estava a dormir, constantemente alerta.

     O dia seguinte nasceu indiferente ao que se passava. O sol radiava esperança e eu começava a acreditar que poderia sobreviver. As crianças não brincavam como dantes. Agora, apenas faziam desenhos na lama. Eu, mais uma vez andei a vaguear como uma alma perdida à procura do seu rumo. Os dias foram passando, as semanas, os meses. Ia vivendo do pão que encontrava no chão que cada vez mais escasseava. Os gritos iam diminuindo. A minha alma também. Já não era a mesma pessoa que antes. Perdi a energia que tinha, a vontade de viver. Uma noite, como todas as outras, adormeci. Adormeci para não mais acordar. No dia seguinte era mais uma das muitas pessoas mortas. Pelo menos agora já não sentia nem frio, nem fome, nem um ódio dentro de mim.


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Comentários

  1. * Paulo Faria says:

    Foi muito bem pensado. Gostei do enquadramento e da acção em geral. Parabéns!.

    | Responder Publicado 8 years, 10 months ago
  2. Quero-te dar de novo os parabéns pelo teu blogue.:)
    Este post está excelente!

    Beijinhos

    | Responder Publicado 8 years, 10 months ago
  3. * Helena Costa says:

    Esta excelente. Parabens pelo texto.

    | Responder Publicado 8 years, 8 months ago


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