PalavrasCruzadas



Uma noite de Natal

 Feliz Natal

       Tudo estava pronto. A mesa estava posta. O bacalhau já estava quase pronto, o  peru estava atrasado, os convidados tinham chegado. Os enfeites necessários e desnecessários, enchiam a sala, que a faziam parecer pequena. As prendas enchiam o pé do pinheirinho. Prendas, que deviam ter, segundo os pedidos dos mais novos, tudo o que fosse novidade electrónica.                          

        Na cozinha o silêncio era quase mórbido. As cozinheiras, controladas pela governanta não se atreviam sequer a cumprimentarem-se, se queriam ter o resto de uma noite de Natal em paz. Paz, esta que era frágil; ia e vinha; abandonava-as ao pequeno toque. Na sala o choro e os berros dos mais pequenos, era um quase nada do barulho que lá existia. As muitas pessoas presentes na sala, desfrutavam do luxo que podiam ter. As extravagâncias, o luxo, naquela sala.        

        Lá fora só existia o vento, o frio. As canções de Natal tocavam p’ra ninguém. Os enfeites espantavam os pássaros, que com o tempo se habituaram aquele acender e apagar de luzes. Lá fora, aquela que todos os dias andava a vaguear pela ruas, não tinha onde dormir, comer. Vivia do que lhe davam, que era escasso, e só existia pelo insistente implorar daquela menina quase cega. Seu maior sonho era ter que calçar.         

        Hoje, que era dia de Natal, achou que podia cobrir-se em frente do centro comercial, que por ser dia de festa , tinha fechado mais cedo. Não conseguia adormecer, então começou sonhar em coisas que achava relaxantes, nada conseguiu. Contou então as estrelas do céu, nada conseguiu também. Então decidiu olhar para dentro da casa, de onde vinha uma multidão de barulho que lá existia. Viu tudo o que sonhava, e que nem sequer sabia que existia. Mergulhou num sonho profundo, um sonho que a levava a onde quisesse ir.  

       Passou então pelo céu, para cumprimentar a sua avó. Que doce avó. Avó carinhosa, uma amiga que todos desejam ter. Visitou a mãe e o pai, que choravam. Choravam por o que lhe fizeram enquanto bebé. Abandono e maus tratos. Depois, morreram quando a bebida já era demais. Sonhou com uma noite de Natal como desejaria. A avó, a irmã perdida, e uma lareira onde se pudesse aquecer. Sonhos… Sonhos, que duraram por pouco tempo mais. Acordou sobressaltada com o berrar de uma mulher que lhe ralhava por não a deixar passar. A menina, não se importou e levantou-se. Regozijou-se e uma chama de alegria cresceu-lhe nos olhos. Olhou o céu e riu-se. Os problemas tinham desaparecido. Desapareceu também ela. Não sei para onde foi. Simplesmente desapareceu. Ela e a alma. Em busca da irmã? 


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Comentários

  1. * Paulo Faria says:

    Bem pensado, bem escrito e com uma mensagem. Encontras um erro ortográfico?
    Um bom Natal, Pedro!

    | Responder Publicado 8 years, 11 months ago
  2. * Paulo Faria says:

    Perfeito!

    | Responder Publicado 8 years, 11 months ago


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