PalavrasCruzadas



Retrato

 

      1941 – II Guerra Mundial         

      A madrugada começava ainda a acordar quando já toda a cidade despertava com o som atroador das espingardas.                                                                                        

      Um clima tenso aconchegou-se em nós. Olhava aterrorizado para o que me enclausurava ali… Pessoas e pessoas. Redes e redes. Grades e grades. Os guardas eram vultos sem rosto que nos encarceravam entre redes. Sem água. Sem luz. Sem comida. Sem olhares de alegria. Sem comunicação.      

      Via a minha mãe longe, a tentar chegar mim. Milhares de gente impediam-na de chegar-me. Os seus olhos tristes e molhados olhavam a minha cara. O meu coração forte não mostrava o que sentia. Acostumei-me a suportar tudo. Via aquele holocausto como se fosse uma passagem bíblica: acontecia e acabava, e começava outra história. Mas não. Iria ser diferente:      

      Chovia há dias e não tinha sequer um pano para me cobrir. O senhor doutor Hitler, como lhe chamavam, passou diante de nós. Raras vezes ele lá passava. Todo o barulho acalmou e se vergou defronte dele. Eu não! Mantive-me hirto e os meus murmúrios ecoaram por todo o recinto. Estava nos olhos de todos.      

      Os guardas correram até mim. O Senhor Doutor Hitler ficou constrangido, mas continuou a sua esporádica visita, levando até a mim um olhar indiscreto, quase imperceptível.       

      Quando chegaram até mim os tiros soaram e os gritos de revolta apareceram subitamente. Deviam estar à espera que algo do género acontecesse. Não sei de onde foram projectados os tiros, ou de onde vieram os gritos. Muito menos de onde vieram as armas… As grades foram detonadas e toda a gente correu recinto fora. A minha mãe conseguiu finalmente chegar a mim. Abraçou-me fortemente, como nunca ninguém me tinha abraçado. Tinha sentido o calor do abraço e o pulsar do coração da minha mãe. Os tiros continuavam e um deles à queima-roupa, acertou em mim. Perfurou-me e atingiu a minha mãe. Um flash acertou sobre nós e ficamos caídos nos chão, recordados naquela fotografia, que permanece até hoje.      

       E pousada sobre a mesa do museu, eu e ela olhamo-nos reflectidos naquela imagem entristecida.      


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Comentários

  1. * Paulo Faria says:

    Creio que estás a passar uma fase de afirmação muito positiva: nota-se a preocupação de criar já um estilo muito próprio, evidenciado sobretudo em frases curtas e uma cuidadosa selecção vocabular.
    Nunca esqueças, Pedro, que é pela leitura que desenvolvemos o nosso poder criativo , no fundo, todo o nosso conhecimento do mundo.
    Continuação de bom trabalho.

    | Responder Publicado 9 years ago
  2. * Rita Silva says:

    Realmente este texto tem de ter por base um belíssimo comentário, e no topo um grandíssimo comentário…
    Sim está muito expressivo mas falas de um tema em que só quem lá teve familiares e outras recordações é que verdadeiramente sentira a dor!
    Quanto a nós que o lemos parece que estavamos lá mas que o viamos de longe.
    Continua assim, com esta queda para escrever e ainda viras escritor…

    | Responder Publicado 9 years ago
  3. * Helena Ciosta says:

    Acho realmente que estás a passar por uma fase de afirmação. Muito bem Pedro. Continuação de bom trabalho.😀

    | Responder Publicado 9 years ago


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